Princípios e caminhos além da sustentabilidadepor David Holmgren

Se estivéssemos em uma sociedade livre que, por força das circunstâncias, tivesse que viver dos recursos locais, nossa primeira obrigação seria identifi car os recursos renováveis (que são limi-tados) e pensar a melhor forma de aproveitá-los. Nessa sociedade a Permacultura seria mo-tivo de estudo nos currículos escolares no ensino primário, intermediário e superior. Sempre há pessoas que querem conhecer mais, elas poderiam realizar estudos mais profundos sobre a interação entre a coletividade humana, o meio ambiente local e o sistema global; isso seria feito em centros de estudos regionais. Nesse caso, elas teriam que se adentrar no estudo das diversas disciplinas que compõem o campo de conhecimento que a Permacultura integra.

A Permacultura é uma ferramenta que permite olhar a paisagem e descobrir os recursos que a natureza oferece para poder planejar e organizar seu uso coletivo. Ela permite visualizar as interações entre os distintos componentes da unidade produtiva rural e reconhecer a função específi ca de cada componente. No momento ela ainda informa pouco sobre as possibilidades de interação da unidade rural com o meio externo, mas pode evoluir para fazer corretamente essa análise.

No futuro, a Permacultura será estudada por todas as pessoas que atuarão no sistema campo--cidade, para entender o funcionamento do ecossistema, da produção, do consumo, do reúso e da reciclagem local e regional. Ela fará parte do cotidiano das pessoas, que poderão estar nas comunidades rurais ecológicas ou nas pequenas cidades. Todas elas estariam contribuindo no processo integrado de produção e consumo realizando atividades compatíveis com sua es-trutura física e mental. E todas as pessoas estariam integradas entre si, estabelecendo relações transparentes e equilibradas. Essa relação de convívio se daria também com os outros seres da natureza. Essa organização humana terá como compromisso recuperar o meio ambiente para mitigar as mudanças climáticas e fornecer oportunidades de trabalho de boa qualidade a uma população que estaria migrando das cidades para o campo, no mundo inteiro.

As comunidades ecológicas não podem depender de insumos externos nem do trabalho exter-no, nem do planejamento externo. A comunidade local deve ser a responsável pelo desenho do sistema de produção, da estocagem, do consumo e das trocas com o exterior.


Cabe à organização local estudar e decidir sobre o que deve ser feito para recuperar o meio ambiente e obter dele alimentos, energia, água, serviços ambientais e moradia. Trata-se de um modelo muito diferente da realidade econômica atual, cujos sistemas de produção são organi-zados e administrados desde fora para atender expectativas de consumo de fora.

Devemos lembrar que a Permacultura nasceu de um estudo sobre as culturas humanas que conseguiram permanecer por longo tempo sem destruir seu meio em diversos lugares e períodos da História da Humanidade. E se percebeu que a harmonia com a natureza depende de uma visão fi losófi ca na qual o convívio entre as pessoas e com a natureza é o maior valor. Esse paradigma se traduz em sistemas nos quais o consumo se ajusta à capacidade de suporte renovável e se preservam espaços de mata nativa para possibilitar a absorção do impacto ambiental e a regeneração do meio produtivo.

Hoje vingam os sistemas orientados ao crescimento industrial que acumulam a riqueza nos setores que possuem maior poder econômico (e militar). O mundo é dominado por uma vi-são econômica falsa. A ciência econômica predominante ignora a contribuição dos recursos renováveis, desconsidera as externalidades (os custos dos impactos sociais e ambientais), não contabiliza o subsídio energético do petróleo à economia industrial e oculta o fenômeno do pico de extração do petróleo e seu impacto nas mudanças climáticas.

A visão real do mundo pode ser revelada às pessoas e à sociedade por meio do estudo da Ecolo-gia de Sistemas, ciência que foi desenvolvida nas últimas cinco décadas do século passado pelos cientistas Eugene e Howard Odum, ambos citados nos livros de Permacultura como leituras básicas.

Além disso, novas formas de ver e interpretar a realidade foram descobertas nas técnicas agríco-las ecológicas de comunidades integradas a seu meio ambiente que ainda existem no mundo ou, quando essas comunidades não existem mais, através de relatos históricos.

No ambiente hostil do mundo moderno proliferam novas idéias sobre como sair desse sistema e desenvolver outro que realmente ofereça possibilidades aos bilhões de pessoas que perderão sua principal base de sustentação nas próximas décadas (o petróleo).

As pessoas deveriam se preocupar muito com a forma de pensar e atuar dos governos, pois as políticas que eles adotam até hoje somente têm como referência o paradigma do crescimento econômico no marco da globalização capitalista.

Ainda que a maioria das pessoas aceite sem discutir o modelo atual de uso dos recursos da Terra, muitas já perceberam que seguir na linha do crescimento signifi ca continuar a destruição do ambiente, degradar mais ainda o regime climático da biosfera e excluir a população local nas zonas de crescimento do sistema global.

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Perante essa perspectiva existem dois caminhos para a sociedade consciente do problema, esses caminhos podem ser trilhados de forma independente ou convergente, eles seriam:

1. Atuar no decrescimento do sistema global, por meio da educação ecológica crítica e pro-movendo a adoção da visão ecológica nas cidades, nas indústrias e nos sistemas adminis-trativos e fi nanceiros convencionais. Trata-se de um processo que pode ser denominado Transição para Cidades Sustentáveis e é uma estratégia considerada de cima para baixo (“Top-down”).

2. Atuar na transição rápida ao patamar de sustentação renovável do planeta por meio do de-senho, discussão e implantação de novos modelos de produção e consumo de tipo comu-nitário, autossufi cientes, sustentáveis e descentralizados. Trata-se de um processo de inova-ção e geração de Sistemas Produtivos Rurais Sustentáveis e é uma estratégia de baixo para cima (“Bott om-up”).

Existem várias instituições sociais (ONGs, movimentos mundiais, grupos de pesquisa e exten-são) atuando nesses dois caminhos. O movimento das comunidades rurais da Permacultura se enquadra no segundo deles. O estudo da Permacultura permite um grande avanço para aqueles que têm acesso a recursos rurais de forma coletiva, de forma independente do governo e das empresas, para desenvolver sistemas que antecipam o futuro e ajudam a sociedade a rever o projeto cultural da civilização atual.

A tradução do livro de David Holmgren ocorre em boa hora. A leitura desse livro vai trazer mui-tas idéias inspiradoras para aqueles que estão trabalhando no segundo caminho e são solidários com aqueles que trilham o primeiro caminho.

Enrique Ortega

Laboratório de Engenharia Ecológica